segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A ironia da vida

A ironia da vida é querer seguir vivendo-a

Com a esperança de que ela nunca acabe,

Mesmo sabendo que o destino é incerto,

E que a morte nos leva à vontade.

A ironia da vida é saber que sem amor não há graça,

Ainda que saibamos que ele nos mata,

Mesmo sabendo que sem ele não se vive.

A ironia da vida é querer ser independente,

Mesmo sabendo que somos seres relacionais,

E que, portanto, dependemos;

Não vivemos sós.

A ironia da vida é querer sempre mais,

É fazer planos, é juntar, construir;

É viver em prol dos sonhos;

É sonhar incomensuravelmente.

A grande ironia da vida é sabermos

Que a única certeza que temos

É a do fim da vida;

É saber que um dia a morte vem

E nos arrasta, e não há volta.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A louca dança da vida

Olhando através da janela

aquele rio de fogo descer,

por um vale de árvores e

grama, varando o espaço;

Imaginei a vida como uma

peça teatral, na qual atores

e platéia inflamam-se e

gritam e, a girar loucamente,

entram e saem, e saem

e entram, freneticamente,

no ritmo e sem parar.

A Uma Vida Que Se Inicia E De Quanta Vida Há Num Problema Bom

O laço se rompe,

a casa abandonada serve

de abrigo, festivo

ao desencanto.

A corda que sofre

o rompimento da sorte;

A morte, queda solitária,

soturna qual uma flor

que seca morreu.

Toda a escolha traz

lágrimas para bem, para mal.

Todo labirinto leva a um lado

obscuro, desconhecido.

Mas leva...

A confusão nem sempre

traz o pranto, mas pode

elevar a alma, mover o

encanto.

A surpresa de um novo

problema pode gerar ânimo;

Pode não ser óbice,

às vezes é obséquio;

Resplandece, alivia,

promove a jornada,

reaviva a “alma”;

Faz lembrar bons tempos,

pensar nas novas horas,

seguir vivo,

festejar, amar, fazer amor.

Problemas bons são

solução para o tédio,

armas contra o desgosto,

ninhos férteis para os planos,

minas ricas para a ousadia.

Havemos de cultivar nos ninhos.

Havemos de perscrutar as minas.

Fazer do problema o remédio para a amargura.

Fazer do entusiasmo o amor.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Rosas

Rosas, rosas no sereno,

frias como lindas estátuas

de Vênus.

Rosas que da noite são

filhas e de noite vivem.

Estes são seres magníficos,

puros em cheiro e cor,

mórbidos em cheiro e cor...

Ardentes, libidinosos em

cheiro e cor...

Quero-te como a uma rosa,

que exala o perfume mais doce,

que lança ao ar a paixão mais quente,

que excita, que arde, elegante, de amor.

Morra comigo

Jogar-me ao lixo

e rolar na lama.

Procurei por você em

lugares recônditos,

mas não achei a faca

de meus sonhos, a lâmina

branda de seus olhos.

Fuja, enquanto há tempo;

Vá, enquanto o tempo ainda existe.

Vá e traga para mim

uma fruta macia.

Rompa a casca, marque o rosto

de nosso adversário e vá.

Busque a minha arma;

Dê-me aquele abraço

macio de adolescente no cio e

lamba-me, pois quero mais.

Ao fim, deite-se

sobre um cobertor,

como um elefante num rio,

como uma baleia no mar.

Deite qual uma mosca na pia,

qual uma vespa no ar e

morra; aquela pequena morte

é o nosso caminho.

Passagens à borda do muro

Caminhos que se cruzam

numa paisagem escura,

duas vielas, duas ruas,

sem calçada, sem fissura.

Casas sem teto,

prédios sem parede.

A escada da fortuna,

a morte ao espelho.

Casos sem solução,

notas rabiscadas por bêbados;

Um fio de luz aos pés

e uma caneta sem tinta no meio.

Quando a morte também sorri

A cripta estava aberta,

mas dentro só havia vento,

nada mais que ar se movimentando.

Uma vela acesa fazia reflexo

(do fogo) na parede de pedra.

Um machado de ouro, cravado

numa mesa de carvalho.

Uma gota d'água a cair

do teto, ruído bom

ao deitar-se à bacia.

Sob a mesa jazia o corpo

de uma mulher bonita.

E junto dela havia um copo,

o cálice sangüíneo.

Próximo à entrada, do muro de pedra, pendia

uma tocha apagada e sombria.

Duas caras, uma da sorte, outra da morte,

me viam.

A sorte me deu as costas;

A morte sorriu para mim.

***

E, enquanto a morte sussurra

ao pé do ouvido,

a fenda abre-se funda

no campo pobre do esquecimento.

(Fragmento)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Amo

Amor.

Amar.

Amasse.

Amarrar-se.

Amor.

Alimento-poesia

Coma a minha poesia,

Devore e digira as minhas palavras.

Corte os versos e abra a

barriga das letras.

E, entre as linhas, revolva a terra

e urine em suas entranhas.

Abra as pernas e

morda-me.

Joguei duas penas ao vento

Joguei duas penas ao vento, Dei-lhes a liberdade. Caíram feito duas pedras, Ruidosas e sem vontade. Joguei duas pedras à terra, Dei-lhes a liberdade. Caíram feito duas penas, Silenciosas e sem vaidade. Lancei mão de minha esperança. Cantei para o galo à vontade. Sonhei que era criança de novo. Esperei até tarde. Fingi que sabia as senhas. Misturei grãos e serragem. Fiz de mim anfitrião De minha vida e vontade.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Cosmogônico

Corre o tempo,

Voam as horas.

Morrem os minutos,

Gotejam os segundos.

Esborracham-se

As baratas,

Desbotam-se

Os tesouros.

E o tempo,

Incólume e eterno,

Irrompe no espaço:

Cosmogônico.

Pensamento

Estrelas são como lágrimas Que brilham na imensidão. Às vezes, ao olhar para elas, Vejo o infinito em pedaços. Pedaços que reluzem no escuro. Cada ponto iluminado daqueles É ou já foi um mundo. Paro e penso no passado, Talvez por estar olhando para ele. É tão sério e tão frágil O mundo em que vivemos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Crisálida

O que de doce tem de cruel E o coração há de sentir, E de profundo e superficial A memória virá refletir; E o tempo há de marcar, Numa passagem, para seguir, O final fará chegar, Para o começo fazer vir. A entrega do que se impede, É o pedir, ao negar, o que fica; Sóbria e triste, a morte avança O despertar de um sonho, o devir.